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terça-feira, 2 de julho de 2013

Manifestações e recursos escassos de emergência

Um dos pontos que abordei nas postagens anteriores, como distribuir recursos sempre escassos de atendimento de emergências, já tem mostrado consequencias tristes. No dia 24 de junho, marginais promoveram um arrastão na Avenida Brasil, no Rio, parada por causa de um "protesto pacífico". O BOPE foi acionado e, sem planejamemto prévio, com efetivo reduzido e cansado - por causa da atuação nas manifestações - adentrou a favela da Maré, em perseguição aos criminosos. Resultado: dez mortos, entre eles um policial e pelo menos dois moradores inocentes.

Congestionamento na Rodovia Castello Branco, por conta de mais um protesto. (http://noticias.r7.com)

As manifestações continuam. Ontem foi o dia dos caminhoneiros bloquearem rodovias em vários estados, incluindo três em São Paulo. Parece que os governos (federal e estaduais) abdicaram de fazer cumprir a lei, para cumprir uma agenda política e fomentada por uma cobertura parcial da imprensa.

Atualização em 03/07: O Governo Paulista recorreu à Justiça, que proibiu o bloqueio das estradas: http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/justica-proibe-bloqueio-de-rodovias-em-sp/

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Mais sobre as manifestações

No post de 20 de junho escrevi alguns tópicos relacionados às manifestações vistas nas ruas do país. Agora, passado pouco mais de uma semana, as manifestações parecem ter diminuído (embora também pareçam longe de acabar) e vale a pena rever os tópicos que coloquei:

- Envolvimento direto do Exército para proteção da Presidente da República. Aparentemente não teve maior repercussão, até por conta da postura tomada pela Presidência de "ouvir a voz das ruas".

- "Preparação" das autoridades brasileiras para enfrentar qualquer tipo de situação durante a Copa das Confederações. Ainda não vimos acontecer. Talvez a prova de fogo (esperamos que não) seja a final no Maracanã no domingo.

- Como lidar com a crise de comunicação. Infelizmente, grande parte da imprensa esqueceu o que é uma cobertura imparcial e continua deslumbrada com os acontecimentos.

- Como balancear o direito de manifestação com o direito de ir e vir e direito à propriedade e como distribuir recursos sempre escassos de atendimento de emergências. Até por causa da pressão da imprensa, os governos - em linhas gerais - decidiram colocar o direito de manifestação acima de qualquer outro. Bem ou mal (eu creio que mal), o dilema foi resolvido.

- Uso das redes sociais. Mostrou-se vital para a mobilização das manifestações. Já as autoridades estão aprendendo a utilizar, mas ainda distantes do que poderiam fazer.

A situação ainda está longe de acabar. Vamos continuar acompanhando.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Manifestações nas ruas

Nosso país passa por um momento tenso e provavelmente inédito, com milhares e milhares de pessoas saindo às ruas para protestar - em princípio, com razão - contra inúmeras situações, por vários dias consecutivos. Os protestos acontecem desde as cidades principais do país, como São Paulo e Rio de Janeiro, até cidades menores, como Silva Jardim, no Rio de Janeiro, com cerca de 22 mil habitantes.

"Manifestantes" enfrentam o Caveirão do BOPE no Rio de Janeiro. (http://g1.globo.com/)


Esse movimento social é extremamente complexo e recente e não vou me atrever a tentar fazer uma análise mais profunda. Apesar disso, gostaria de salientar alguns pontos relevantes para o Gerenciamento de Emergências:

- Envolvimento direto do Exército para proteção da Presidente da República.

- Apesar da propaganda prévia da "preparação" das autoridades brasileiras para enfrentar qualquer tipo de situação durante a Copa das Confederações (ver postagem de 8 de maio), não foi isso que foi visto quando o simulado virou situação real.

- Do ponto de vista das autoridades, como lidar com a crise de comunicação, quando a imprensa, com raras exceções, está totalmente deslumbrada e tendenciosa quanto às manifestações.

- Ainda do ponto de vista das autoridades, como balancear o direito de manifestação com o direito de ir e vir e direito à propriedade de outros, principalmente quando as forças de segurança estão sob observação minunciosa (e tendenciosa).

- Embora o tema domine totalmente a imprensa, outros crimes continuam ocorrendo, pessoas continuam necessitando de ambulâncias, polícia e bombeiros. Como distribuir recursos sempre escassos de atendimento de emergências nessas situações?

- Mais uma vez, a importância e efetividade das redes sociais fica evidente, por parte dos manifestantes. Por parte das autoridades, isso parece que ainda não foi totalmente percebido. Por exemplo, o Twitter da Secretaria de Segurança de São Paulo e da CET do Rio ignorou totalmente as manifestações. Já a CET de São Paulo usou o microblog para atualizações em tempo real das condições do trânsito. A Secretaria de Segurança do Rio ficou em uma posição intermediária, colocando orientações, mas não em tempo real.

Vamos continuar acompanhando esse momento histórico e ver que lições podemos aprender.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

O atentado de Boston e o terrorismo no Brasil

O atentado de 15 de abril na Maratona de Boston trouxe para a imprensa várias matérias sobre a preparação do Brasil para enfrentar ameaças terroristas, em especial com a aproximação da Copa das Confederações e a visita do Papa Francisco I, sem falar na Copa do Mundo e nas Olimpíadas. A maior parte das reportagens mostra a “preparação” do nosso país para enfrentar a ameaça terrorista com as mesmas imagens: atiradores de elite, equipes táticas com suas roupas negras e miras laser, roupas de proteção contra agentes químicos e biológicos.(1) (2)


Treinamento de policiais do BOPE do Rio de Janeiro. (http://noticias.uol.com.br/)

Embora o Brasil não seja um alvo prioritário de terroristas internacionais, a presença de milhares de turistas estrangeiros e a cobertura da imprensa nos eventos futuros, torna a possibilidade de ataque mais alta.

O Brasil estará realmente preparado para a potencial ameaça terrorista quando cuidar adequadamente dos mais de 17 mil Km de fronteiras terrestres e 8 mil Km de fronteiras marítimas, impedindo a entrada de armas ilegais (entre outras coisas) e controlando o fluxo de pessoas. Estaremos preparados quando as autoridades conseguirem controlar o comércio, armazenagem e uso de explosivos, pois os artefatos que destruíram dezenas e dezenas de caixas eletrônicos são os mesmos que podem ser usados em uma bomba terrorista.

Quando a cultura do "If You See Something, Say Something"(3), isto é, reportar às autoridades atos suspeitos estiver enraizada em nossa população, estaremos preparados. Para isso, precisamos de cidadãos conscientes e, de outro lado, autoridades que não considerem os “cidadãos comuns” apenas como vítimas ou idiotas (ou os dois) e nos ouçam e ajam rapidamente. Basta lembrar que em 2010, a polícia de Nova Iorque evitou um atentado a bomba na Times Square graças ao aviso dado por um vendedor ambulante.(4)


Nosso país estará preparado quando grandes cidades tiverem se planejado e treinado para catástrofes, com fez a cidade de Boston e foi mostrado na revista New Yorker.(5)

Esses são apenas alguns dos inúmeros aspectos que se entrelaçam de modo complexo e devem ser levados em conta na questão do terrorismo.

É claro que equipes táticas bem selecionadas, treinadas, equipadas e motivadas são peças importantíssimas nos esforços de contraterrorismo de qualquer país. Mas só isso não basta.

(1) http://revistaepoca.globo.com/Brasil/noticia/2013/04/terrorismo-pode-acontecer-aqui.html
(2) http://g1.globo.com/brasil/noticia/2013/04/exercito-tera-600-militares-contra-terrorismo-nas-confederacoes.html
(3) http://www.dhs.gov/if-you-see-something-say-something-campaign
(4) http://g1.globo.com/mundo/noticia/2010/05/policia-de-nova-york-desarma-bomba-em-carro-na-times-square.html
(5) http://www.newyorker.com/online/blogs/newsdesk/2013/04/why-bostons-hospitals-were-ready.html



terça-feira, 16 de abril de 2013

Atentado na Maratona de Boston

O terrível atentado de ontem contra espectadores e atletas da Maratona de Boston ainda é muito recente, mas alguns fatos relacionados à emergência já podem ser identificados.

Socorristas no atendimento às vítimas do atentado. (www.npr.org)


Como ocorre em eventos desse tipo e mais uma vez desmentindo a "Síndrome do Desastre", uma parcela importante do socorro prestado às vítimas, especialmente nos primeiros momentos, veio dos próprios espectadores, atletas e membros da organização da corrida. Novamente, os envolvidos mostram-se como um recurso importante e não somente como "vítimas".

Outra tendência que se confirma é a importância cada vez maior das redes sociais. Por exemplo, com a sobrecarga dos sistemas de telefonia celular nos momentos que se seguiram às explosões, era impossível realizar ligações. Várias pessoas usaram então o Twitter e o Facebook, entre outras,  para atualizarem suas informações, avisando família e amigos que estavam bem. Outro uso importante foi feito pelas autoridades, como o Departamento de Polícia de Boston, a fim de divulgar informações o mais rapidamente possível.

Os próprios investigadores do atentado informaram que irão usar as imagens feitas por cidadãos comuns, como aquelas postadas nas redes sociais, para ajudar na identificação dos criminosos.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Morte no jogo do Corinthians na Bolívia

Em um triste e evitável episódio, o adolescente Kevin Espada, de 14 anos, torcedor do San José, foi morto nesta quarta-feira (20/02) a quando um rojão acertou seu olho direito durante o empate por 1 a 1 com o Corinthians, em Oruro, na Bolívia, pela Copa Libertadores da América.
 
Do ponto de vista da Comunicação de Crises, o Corinthians começou relativamente bem: "A direção do Sport Club Corinthians Paulista lamenta profundamente a morte de um torcedor na partida contra o San José na noite da última quarta-feira (20) e se coloca à disposição para ajudar no que for possível, mesmo sabendo que nada apagará a dor causada pelo incidente", publicou o clube em nota oficial.

Tragédia em Oruro. (http://www.foxsports.com.br/)

 
Porém, hoje de tarde, o presidente do Corinthians, Mário Gobbi, deixou a desejar na comunicação no meio da crise.
 
“Presume-se que é uma fatalidade. Exceto que provem o contrário, que alguém, identificado, usou de um artifício para dolosamente atingir outra. Ou tem essa prova que fulano de tal usou um artifício de fogos para atingir outrem ou é uma fatalidade”, disse em um tom de voz não muito confiante.
 
Além de usar uma linguagem não muito comum ("artifício de fogo", "atingir outrem"), enveredou pelo caminho da isenção da culpa, apelando para a famosa "fatalidade". Apenas para esclarecer, a palavra pode significar "destino inevitável", "coincidência deplorável", "acaso infeliz, funesto". Isto é, ninguem teve culpa, o que claramente não é o caso. Como em todo fato assim, a perda da vida do jovem foi o resultado de várias causas interligadas, que esperamos que sejam esclarecidas.
 
O diretor de futebol do clube também declarou que “pelos relatos não houve nenhum confronto antes do incidente. As torcidas estavam juntas, em harmonia. Se um sinalizador, que eu não sabia, é uma arma letal, a responsabilidade é da polícia e da segurança do estádio que permitiu que isso acontecesse, não do Corinthians”, também colocando a culpa nos outros.
 
Normalmente, essa não é uma postura adequada para comunicação em caso de crises, embora seja muito comum. Não é possível ainda determinar se a crise, e em especial sua comunicação, vai causar algum dano ao clube, mas vale a pena prestar atenção, lembrando que como em todos os outros aspectos do gerenciamento de emergências, o planejamento e o treinamento fazem a diferença entre o sucesso e o fracasso na comunicação de crise.

Fontes:

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A tragédia de Newtown

Na sexta-feira, dia 14, um atirador matou 26 pessoas, sendo 20 crianças, na Escola Sandy Hook na cidade de Newtown, Connecticut, Estados Unidos. O crime absurdo chocou e entristeceu o mundo todo. As investigações estão em andamento e ainda é cedo para conclusões definitivas. Os debates sobre o que fazer para evitar que acontecimentos terríveis como esses se repitam tomam conta da mídia, principalmente nos EUA. Aqui, vamos analisar alguns fatos do ponto de vista de Gerenciamento de Emergências.

Bandeira americana a meio mastro na cidade de Newtown. (nation.time.com)

A participação dos Corpos de Bombeiros Voluntários das cidades de Easton e Monroe, além das cinco companhias voluntárias de Newtown - Botsford, Dodgingtown, Hawleyville, Newtown Hook & Ladder e Sandy Hook, esta a pouca distância do local - merece destaque na resposta ao tiroteio, bem como dos policiais do local.

Os noticiários citaram casos de professores que trancaram seus alunos nas salas ou mesmo em ármarios e banheiros, a fim de protegê-los durante o tiroteio. Mais do que uma iniciativa improvisada, essa ação é resultante de planejamento e treinamento. O procedimento de se trancar - conhecido como "lockdown" - foi simulado algumas vezes na escola, de forma que quando se fez necessário, os professores fizeram o que foi preciso, sem hesitação e sem ter que perguntar para outros se era para fazer isso mesmo.

Na postagem do dia 9 de março abordamos o comportamento de crianças em emergências, vendo que do ponto de vista da sobrevivência, as crianças devem ser consideradas como funcionalmente diferentes dos adultos, devido ao seu estágio de desenvolvimento neurológico e cognitivo. Ainda nessa postagem, citamos o Professor de Psicologia John Leach, que afirma que essa situação pode ser minimizada com a instrução sobre emergências nas escolas.

E no Brasil? Será que nossas escolas estão preparadas para uma emergência? Não me refiro somente às ocorrências de "atirador ativo" (pouco prováveis por aqui, embora não impossíveis, conforme provou o caso de Realengo em 2011), mas também a outros tipos de emergência mais prováveis, como vendavais, inundações e incêndios.

Eric Holdeman escreveu no blog Disaster Zone algumas coisas que os pais e responsáveis poderiam e deveriam perguntar nas escolas de seus filhos. Tomo a liberdade de reproduzir a lista aqui, fazendo algumas inclusões e modificações para o que considero ser a realidade brasileira:
- A escola possui sistema de alarme e combate a incêndio? Possui Brigada de Incêndio treinada? Tem a licença do Corpo de Bombeiros?
- Tem um plano de emergência? Se tiver – o que vai ser difícil – quando foi revisado? Se o plano tiver mais de cinco anos, deve estar desatualizado. A polícia e o Corpo de Bombeiros conhece esse plano?
- Já houve alguma simulado de emergência na escola?

Equipamento de combate a incêndio sem condições de uso em escola pública brasileira. Preparada para emergências?

A lista do blog é mais extensa, mas considero que para a nossa realidade, os pontos acima já são um bom começo. Provavelmente a escola terá deficiências. Caberá a nós não somente cobrar das autoridades que façam a sua parte, mas tomarmos a iniciativa de sermos parceiros da escola, ajudando onde for necessário para que nossas crianças estejam mais seguras.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Mais sobre a crise da segurança pública em São Paulo

A crise na segurança pública no Estado de São Paulo continua. O número de vítimas de homicídios cresceu 114,6% na comparação entre os meses de outubro deste e do ano passado na capital paulista. As medidas para tratar do mais importante, que é o controle da situação em si, parecem não estar surtindo o efeito desejado.

Além disso, o gerenciamento da crise apresenta problemas. Hoje, o secretário de Segurança Pública de São Paulo, Antonio Ferreira Pinto, pediu exoneração do cargo. O governador Geraldo Alckmin aceitou a demissão e elogiou o agora ex-secretário.

Ontem, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, disse que a onda de violência na Grande São Paulo mata mais gente que o conflito na Palestina.

A regra de divulgar os fatos ruins o quanto antes, e com isso assumir o controle - ainda que parcial - do fluxo de informações, ainda não foi seguida. Com isso, abre-se margem para as mais diversas declarações.

Vamos continuar acompanhando o caso.

domingo, 4 de novembro de 2012

A crise da segurança pública em São Paulo

Apenas nos três primeiros dias de novembro, trinta pessoas morreram na Região Metropolitana de São Paulo em ataques violentos ou em confronto com a polícia. Os números de homicídios no mês de setembro em São Paulo registraram um aumento de 96% em relação ao mesmo mês do ano passado. Foram 135 casos que resultaram em 144 mortes, uma média de quase 5 por dia.

Operação policial na favela de Paraisópolis. (http://www.estadao.com.br/)

A situação é muito recente e sequer foi resolvida ainda, de forma que é muito cedo para conclusões definitivas, mas alguns fatos já podem ser comentados. Procurarei não me deter nas questões específicas de Segurança Pública, que não são o foco central deste blog, mas examinar a situação do ponto de vista do Gerenciamento de Emergências, especialmente da comunicação em crises.

Parece que a regra básica de que a organização em crise deve divulgar os fatos ruins o quanto antes não foi seguida. Em que pese que a organização em questão é o Governo do Estado de São Paulo e que acabamos de passar por um período eleitoral, a insistência em minimizar os fatos e negar a crise parece-me uma enorme falha de comunicação.

Na postagem de 27 de janeiro, já citamos uma definição para crise, que pode ser um acontecimento extraordinário, ou uma série de acontecimentos, que afeta de forma diversa à integridade do produto, a reputação ou a estabilidade financeira da organização; ou a saúde e bem-estar dos empregados, da comunidade ou do público em geral, conforme o Professor Dennis Wilcox, da San Jose State University. Pelos fatos do início da postagem, parece claro que o Estado enfrenta uma crise.

No final do mês passado, o secretário de Estado da Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto, negou que o crime organizado tenha mandado comerciantes fecharem as portas, atribuiu o pânico que se espalha na cidade a boatos e colocou a culpa nos meios de comunicação. Para ele, toque de recolher "é coisa de outros Estados". "É a imprensa que fica criando pânico na população, sem apurar nem confirmar os fatos", disse o capitão Rodrigo Cabral, da assessoria de comunicação da PM. Embora realmente não deva ter havido um toque de recolher formalmente decretado , a negação e - pior - a transferência da culpa para os meios de comunicação não me parece a melhor estratégia de comunicação e nem o melhor meio de tranquilizar a população.

Operação policial na favela de Paraisópolis. (http://oglobo.globo.com/)

Outra questão que aparece nesse contexto é a aparente contradição entre os membros do governo, tanto paulista como federal. O Secretário da Segurança afirmou que "estamos com a estratégia absolutamente correta" (26/10) e que "aqui a polícia entra em qualquer lugar, aqui não precisa ter unidade pacificadora, não tem nada para pacificar em São Paulo" (31/10). O Comandante da PM afirmou que considera "desnecessário o Exército" (02/11). Já o Governador Geraldo Alckmin afirmou que "toda ajuda é muito bem-vinda" (31/10). Por sua vez, a ministra-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Helena Chagas, afirmou que o Governo de São Paulo aceitou a oferta de ajuda federal para combater a violência no Estado, em telefonema feito pela presidente Dilma Rousseff (31/10).

Provavelmente essa crise se tornará um "case" para estudos futuros. Espero que os governos estadual e federal acertem não somente o discurso, mas - principalmente - as ações para por fim à situação o mais rapidamente possível.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Lições das ocupações no Rio de Janeiro

Na postagem anterior, abordei a questão dos perigos do "auto despacho", por mais bem intencionado que seja, e também, por outro lado, da importância da identificação de recursos de ajuda mútua na fase de planejamento para a emergência. Esse é o momento de identificar forças e fraquezas, oferecer e pedir ajuda, forjar alianças e celebrar acordos de cooperação entre os vários participantes do gerenciamento da emergência. Os acontecimentos recentes no Rio de Janeiro trazem um exemplo de planejamento bem feito.

A imprensa nacional e estrangeira repercutiu a ocupação das favelas de Manguinhos e de Jacarezinho, no Rio de Janeiro, pelas Polícias Militar e Civil, com apoio dos Fuzileiros Navais e da Polícia Rodoviária Federal, feira no domingo, 14 de outubro. Não houve confrontos e as forças policiais não encontraram resistência na ação que durou apenas 20 minutos. A operação sofreu algumas críticas pela falta de prisões (a esse respeito, o secretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, disse que "mais importante (que fazer de um bandido um troféu) é devolver o território para 70 mil pessoas sem derramar uma gota de sangue"). Apesar disso, a ocupação foi indiscutivelmente um sucesso do ponto de vista da coordenação dos diferentes recursos envolvidos.
 

Blindados da Marinha na ocupação de Manguinhos. (http://www.estadao.com.br/)
  

Relembrando, em novembro de 2010, em resposta a uma série de ataques perpetrados por marginais, o governo fluminense iniciou a ocupação da Vila Cruzeiro. Os policiais enfrentaram forte resistência e, em pouco tempo, passaram a utilizar seis blindados M113 da Marinha para transporte de tropas. A rápida mobilização dos blindados indica que a fase de planejamento foi feita corretamente. Além disso, a operação coordenou cerca de dois mil homens, entre policiais militares, civis, federais, militares da Marinha e Polícia Rodoviária Federal. Ainda em novembro, foi a vez do Complexo do Alemão ser ocupado, em uma operação conjunta de forças policiais, do Exército e Marinha.

Além de planejamento e coordenação de diferentes recursos sob um comando unificado, a recente ocupação traz como bom exemplo também o uso da tecnologia. Pela primeira vez em uma operação policial, o BOPE usou um equipamento LiveU de filmagem durante uma incursão, com transmissão das imagens em tempo real para o Posto de Comando da operação.

Embora ainda nosso país tenha um longo caminho a percorrer no Gerenciamento de Emergências, devemos  ficar atentos também para os nossos bons exemplos.

domingo, 22 de abril de 2012

Massacre de Realengo - lições para o gerenciamento de emergências

Em 7 de abril de 2011,  Wellington Menezes de Oliveira invadiu a Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, no Rio de Janeiro, armado com dois revólveres e atirou contra os estudantes, matando doze e ferindo dezenas. O atirador cometeu suicídio após ser ferido e encurralado pela polícia. O triste episódio ficou conhecido como o Masacre de Realengo.

Escola Municipal Tasso da Silveira, momentos após o crime. (Wikimedia Commons) 


A sociedade ficou estarrecida com o crime que pensávamos que nunca ocorreria aqui e debates acalorados sobre a segurança em nossas escolas surgiram. Mas, passado um ano, será que alguma lição pode ser aplicada ao Gerenciamento de Emergências?

O crime representou aquilo que se conhece por ocorrência de atirador ativo (active shooter). Segundo o Department of Homeland Security (DHS), "um atirador ativo é um indivíduo ativamente engajado em matar ou tentar matar pessoas em uma área confinada e povoada; na maioria dos casos, atiradores ativos usam armas de fogo e não há um padrão ou método para sua seleção de vítimas".


Active shooter


Até o Massacre de Columbine, que aconteceu em 20 de abril de 1999, no Condado de Jefferson, Colorado, Estados Unidos, o procedimento padrão policial para esse tipo de ocorrência nos Estados Unidos era o de "conter e esperar" (contain-and-wait): para evitar ferimentos em policiais e civis,  os primeiros policiais isolavam o local e aguardavam a chegada das equipes táticas da SWAT, que adentrariam no cenário. Em Columbine, o procedimento falhou completamente: durante os 45 minutos entre o isolamento do local e a chegada da SWAT, Eric Harris e Dylan Klebold atiraram em 10 das 13 pessoas que mataram.


A partir disso, o procedimento padrão passou a ser o enfrentamento imediato do atirador, para que ele cesse os disparos: exatamente o que fez em Realengo o então 3º Sargento PM Márcio Alexandre Alves e seus colegas (na minha opinião, mais por um feeling correto do policial do que por causa de treinamento para situação de atirador ativo).


Policiais americanos treinam para conter um atirador ativo. (http://policecrunch.com/)


Preparação


Mas, e por aqui, será que aprendemos alguma coisa? Será que hoje nossos policiais têm programas para enfrentamento de atiradores ativos? E quanto às escolas ou empresas, a ameaça de atirador ativo foi identificada e tratada? 


Conforme já discutido na postagem sobre crises em segurança pública, o trabalho deverá ser no sentido de diminuir as vulnerabilidades. A grande vantagem de fazer o planejamento de emergências baseado em uma análise de ameaças e riscos (all hazards) é que após a identificação de ameaça e do dano, a resposta para um evento serve para muitos outros.


Assim, o reforço da segurança física de áreas e instalações serve tanto para deter um atirador ativo quanto um assaltante comum. Procedimentos para equipes de segurança e emergência podem tanto ser acionados no caso de assalto a um caixa eletrônico nas dependências da empresa, quanto para um atirador desequilibrado.


O "público em geral" também precisa ser orientado sobre o que fazer. Nos Estados Unidos, até curso a distância gratuito existe para isso.


Na postagem anterior, citei uma passagem de Lewis Carroll sobre lições (não) aprendidas em eventos traumáticos que, creio eu, merece uma repetição:

"O horror daquele momento," o rei continuou, "eu nunca, nunca vou esquecer!"
"Você vai, no entanto," disse a Rainha, "se você não fizer um memorando sobre isso."
Lewis Carroll, Through the Looking-Glass, and What Alice Found There, 1871



Essa ameaça, como outras, precisa ser identificada e as organizações precisam estar preparadas. Não adianta simplesmente esquecer e fingir que não irá acontecer de novo.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Crises em segurança pública e preparação para emergências


A crise gerada pela greve da Polícia Militar do Estado da Bahia, que assumiu proporções gravíssimas, trouxe impactos diretos para empresas, quando lojas e supermercados foram saqueados e eventos foram cancelados, e impactos indiretos, como a diminuição do fluxo de turistas, que pensam em cancelar suas viagens, especialmente após o governo dos EUA desaconselhar viagens não essenciais ao estado.
Tropas do Exército chegam a Salvador. (http://www.defesanet.com.br/)

A greve da PM baiana não é um fato isolado. Outras quatro polícias estaduais já haviam paralisado as atividades apenas no Governo Dilma Rousseff. A PM do Rio de Janeiro também entrou em greve hoje, embora aparentemente com impactos menores, por conta da preparação do governo fluminense. São Paulo, que também enfrentou uma greve da Polícia Civil, já havia sofrido as consequências de uma crise de segurança pública em 2006, durante os ataques do PCC.

Não cabe aqui discutir as reivindicações dos grevistas e nem os meios de promovê-las. Para isso existem outros fóruns. Da perspectiva do Gerenciamento de Emergências, gostaria de discutir a preparação das empresas e outras organizações para esse tipo de evento, infelizmente não tão improvável assim. E se houvesse uma deterioração da segurança pública aqui e agora, sua organização estaria preparada para enfrentar a crise?
Cena do filme "Salve Geral", sobre os ataques do PCC em 2006. (http://noticias.r7.com/)

Não há fórmula pronta para a preparação para crises na segurança pública, porém o processo se inicia com a identificação da ameaça, como em todo planejamento de emergência. Ao reconhecermos uma ameaça, indiretamente estamos também identificando uma vulnerabilidade. As ameaças por definição são eventos não controláveis, o que dificulta, portanto, a sua neutralização.

No caso das ameaças provocadas pelo homem, como o que estamos discutindo, o trabalho deverá ser no sentido de diminuir as vulnerabilidades. É possível reforçar a segurança física de áreas e instalações, por exemplo, com a contratação de profissionais especializados? Nesse caso, as empresas já foram previamente selecionadas? Outra medida poderia ser o trabalho à distância, utilizando computador e telefone. Nesse caso, os funcionários afetados já foram identificados? Como serão comunicados da decisão?

Muitas vezes, a ação a ser tomada é a suspensão das atividades, a fim de evitarem-se prejuízos maiores. Nesse caso, essa ação também que ser planejada.

Levando em conta que as questões de segurança pública são normalmente externas à organização, como pensar em todas as ameaças? Quem no mundo corporativo poderia imaginar que a PM entraria em greve ou que um grupo de criminosos atacaria o Estado? A grande vantagem de fazer o planejamento de emergências baseado em uma análise de ameaças e riscos é que após a identificação de ameaça e do dano, a resposta para um evento serve para muitos outros. Assim, não importa se a crise é devido a uma greve policial, ataque terrorista ou mesmo eventos não diretamente relacionados com a segurança pública, como uma greve nos transportes ou ainda uma pandemia, várias ações podem ser as mesmas.

O certo é que uma crise de segurança pública – como outras – irá acabar depois de algum tempo. Nesse momento, as organizações que já haviam identificado a ameaça e se preparado irão voltar à normalidade muito mais facilmente.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Ainda sobre ocorrências com reféns

No post anterior, acabei destacando ocorrências onde reféns perderam a vida. O que não enfatizei é que a aplicação do Sistema de Comando de Incidentes (ou outro sistema equivalente), aumenta a segurança não somente das vítimas, mas também - e principalmente - dos policiais e socorristas.
Sei que é temerário analisar qualquer caso à distância e com base apenas em relatos da imprensa, mas parece que a não aplicação de um sistema formal de comando foi um dos fatores que contribuíram para a morte de um oficial da PM em São Paulo, nesta semana.
Que fique claro que não quero culpar o major que, como disse o Comandante da PM, foi um herói. O que necessita de melhorias é o sistema como um todo.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Ações envolvendo reféns


No caso paulista, inicia-se agora a discussão para ver de onde partiu a bala que matou o refém, porém, do ponto de um ponto de vista estratégico, isso não faz diferença. A autoridade policial está (ou deveria estar) no comando da situação e jamais usar de força letal se houver o risco (ou suspeita de risco) de atingir inocentes, a não ser em situações muito excepcionais, o que não aconteceu em nenhum dos dois casos.
Não quero criticar as ações policiais, mas parece que a polícia brasileira (de modo geral) não está suficientemente preparada para o uso controlado da força. Quando falamos em gerenciamento de emergência, temos que lembra que não estamos falando somente da resposta (resgate, incêndio, produtos perigosos e primeiros socorros), mas de crises de um modo mais amplo, de modo que esse assunto é de interesse por parte de gestores de emergência.
Justiça seja feita: nem todas as situações com reféns acabam mal. Quando estava terminando este post, vi duas notícias recentes sobre reféns liberados e suspeitos presos sem violência, em Pirassununga, SP e também em Belo Horizonte. As ações desastrosas repercutem mais na imprensa e permitem o estudo dos casos por parte dos não diretamente envolvidos.
Classicamente, uma situação com reféns envolve na fase inicial de resposta, o isolamento, a contenção, o controle e a comunicação, o que parece que não ocorreu. Em seguida, viriam as fases de distribuição estratégica, com o posicionamento de equipes táticas, estabelecimento de perímetros e posto de comando, de negociação e, finalmente, a fase de resolução com a rendição dos suspeitos ou, apenas em último caso, com ação tática para resgate de reféns.
Em junho de 2000, na zona sul do Rio de Janeiro, um ônibus foi sequestrado por um delinquente, num caso também com final trágico, dessa vez envolvendo a tropa de elite da polícia fluminense, o BOPE. Em um curso, fiz há algum tempo uma análise do caso, da perspectiva de um gestor de emergências, utilizando a abordagem clássica do assunto. A análise foi feita com base em notícias e entrevistas disponíveis na internet e não necessariamente representam a realidade, em especial nas questões consideradas sigilosas pelas autoridades, como o fluxo de informações na cadeia de comando, entre outras.
Na fase de resposta, embora o criminoso tenha sido contido no ônibus pela guarnição do 23º BPM que havia abordado o veículo inicialmente, não houve um isolamento efetivo pelas guarnições que chegaram em seguida, conforme indica a presença de curiosos e dos próprios jornalistas. Aparentemente, iniciou-se a comunicação com as primeiras equipes presentes.
Embora a fase inicial já tenha apresentado algumas falhas, foi na fase de distribuição estratégica que se iniciou a cadeia de erros que iria culminar com o desfecho desastroso do episódio.  Não houve estabelecimento de um posto de comando funcional, visto que o comandante da operação (IC), então comandante do BOPE, ficou em grande parte do tempo na linha de frente, confundindo-se com o negociador. A ausência de comando efetivo refletiu-se na falta dos perímetros e posicionamento das equipes táticas do BOPE de forma aparentemente autônoma. Houve também a ausência do posicionamento de “snipers”, que poderiam vigiar e fornecer informações importantes sobre a situação no ônibus, além de executar tiros de precisão, se necessário.
Já na fase de negociação, os erros continuaram. O negociador designado para o caso foi um capitão, também do BOPE.  Questiono o fato de o negociador fazer parte também da unidade de ação tática. Mesmo que no momento da negociação ele não tivesse o papel tático, vestia a farda negra com a hoje famosa insígnia da “faca na caveira”. Uma ressalva aqui seja feita, já que dada a imagem estereotipada de corrupção e incompetência das tropas regulares da PMRJ à época (que não necessariamente representava a verdade), o criminoso poderia sentir mais confiança negociando com um oficial do BOPE.
Toda a negociação foi feita em voz alta ou através de gestos, sem o uso de telefones celulares ou radiocomunicação e, pior, feita “cara a cara”, sem o uso de escudo balístico ou outra proteção, colocando em risco a segurança do negociador e também de toda a operação. Conforme exposto anteriormente, o IC colocou-se na linha de frente e assumiu a negociação em vários momentos, desautorizando o negociador e confundindo o marginal, que passou a negociar com duas pessoas diferentes.
Também não consta que familiares do criminoso ou dos reféns tenham sido contatados pelos policiais nessa fase.
A fase de resolução poderia ter acontecido antes, caso as fases anteriores houvessem acontecido corretamente. Às 15h50 (1h20 do início da situação), o marginal dispara contra os espectadores e às 17h40 encena a execução de uma refém, fatos suficientes para desencadear uma ação tática, preferencialmente um tiro de precisão. Porém, consta que o então Governador do Estado havia dado ordens expressas ao IC, através do celular, para que o criminoso fosse poupado, numa clara ingerência política sobre uma questão técnica e legal.
Apesar dos erros anteriores, às 18h45 o marginal sai do coletivo com uma refém e o evento mostrava-se a caminho de uma resolução sem mortes. Apesar de drogado e de ter tomado atitudes que poderiam (e deveriam) ter iniciado uma ação tática, o criminoso mostrou também sinais que tinha expectativa de sair vivo e – relativamente – bem do evento, como o fato de ter pedido emprego ao negociador. A meu ver, a rendição do marginal e resolução pacífica da situação era questão de tempo.
Nesse ponto houve a ação tática do BOPE, quando um soldado do batalhão aproximou-se do marginal e atirou um com uma submetralhadora HK MP-5, porém não conseguiu neutralizar o criminoso, que disparou e matou a refém. Embora o inquérito da Polícia Civil indique que o soldado agiu cumprindo ordens, a ação tem toda a aparência de uma atitude autônoma (“free lancer”), inadmissível em uma situação como essa. A arma e a abordagem também não foram adequadas, pois uma análise do vídeo da ação mostra que o bandido virou-se para o policial, possivelmente ao escutar o ruído do destravamento da submetralhadora, o que fez com que o atirador perdesse a oportunidade de neutralizar o marginal.
Como corolário para a desastrosa operação, o sequestrador, já desarmado e sob custódia da polícia, foi morto por asfixia dentro da viatura do BOPE que o conduzia. Os policiais envolvidos foram posteriormente inocentados. O livro “Elite da Tropa 2” traz um interessante relato do que teria acontecido na viatura, em uma das muitas ramificações da história.
Em um balanço final, embora “apenas” um refém tenha sido morto pelo criminoso e os demais salvos, mesmo essa morte e a morte de próprio marginal poderiam ter sido evitadas com um melhor gerenciamento da situação. Embora nos meses que se seguiram o caso tenha sido considerado um divisor de águas e um aprendizado para que situações semelhantes nunca mais acontecessem, a realidade mostrou-se diferente, como aconteceu no caso de Santo André, em outubro de 2008, e agora nos casos mais recentes.