A foto é comovente. O filho do bombeiro William Tanksley, de Dallas, EUA, abraça o capacete do pai, morto em serviço ao ajudar um motorista em uma ponte congelada na semana passada.
Que essa postagem sirva como homenagem também aos nossos profissionais que perderam a vida em serviço e que nos faça pensar se lhes damos o devido valor.
Na sexta-feira, dia 14, um atirador matou 26 pessoas, sendo 20 crianças, na Escola Sandy Hook na cidade de Newtown, Connecticut, Estados Unidos. O crime absurdo chocou e entristeceu o mundo todo. As investigações estão em andamento e ainda é cedo para conclusões definitivas. Os debates sobre o que fazer para evitar que acontecimentos terríveis como esses se repitam tomam conta da mídia, principalmente nos EUA. Aqui, vamos analisar alguns fatos do ponto de vista de Gerenciamento de Emergências.
Bandeira americana a meio mastro na cidade de Newtown. (nation.time.com)
A participação dos Corpos de Bombeiros Voluntários das cidades de Easton e Monroe, além das cinco companhias voluntárias de Newtown - Botsford, Dodgingtown, Hawleyville, Newtown Hook & Ladder e Sandy Hook, esta a pouca distância do local - merece destaque na resposta ao tiroteio, bem como dos policiais do local.
Os noticiários citaram casos de professores que trancaram seus alunos nas salas ou mesmo em ármarios e banheiros, a fim de protegê-los durante o tiroteio. Mais do que uma iniciativa improvisada, essa ação é resultante de planejamento e treinamento. O procedimento de se trancar - conhecido como "lockdown" - foi simulado algumas vezes na escola, de forma que quando se fez necessário, os professores fizeram o que foi preciso, sem hesitação e sem ter que perguntar para outros se era para fazer isso mesmo.
Na postagem do dia 9 de março abordamos o comportamento de crianças em emergências, vendo que do ponto de vista da sobrevivência, as crianças devem ser consideradas como funcionalmente diferentes dos adultos, devido ao seu estágio de desenvolvimento neurológico e cognitivo. Ainda nessa postagem, citamos o Professor de Psicologia John Leach, que afirma que essa situação pode ser minimizada com a instrução sobre emergências nas escolas.
E no Brasil? Será que nossas escolas estão preparadas para uma emergência? Não me refiro somente às ocorrências de "atirador ativo" (pouco prováveis por aqui, embora não impossíveis, conforme provou o caso de Realengo em 2011), mas também a outros tipos de emergência mais prováveis, como vendavais, inundações e incêndios.
Eric Holdeman escreveu no blog Disaster Zone algumas coisas que os pais e responsáveis poderiam e deveriam perguntar nas escolas de seus filhos. Tomo a liberdade de reproduzir a lista aqui, fazendo algumas inclusões e modificações para o que considero ser a realidade brasileira: - A escola possui sistema de alarme e combate a incêndio? Possui Brigada de Incêndio treinada? Tem a licença do Corpo de Bombeiros? - Tem um plano de emergência? Se tiver – o que vai ser difícil – quando foi revisado? Se o plano tiver mais de cinco anos, deve estar desatualizado. A polícia e o Corpo de Bombeiros conhece esse plano? - Já houve alguma simulado de emergência na escola?
Equipamento de combate a incêndio sem condições de uso em escola pública brasileira. Preparada para emergências?
A lista do blog é mais extensa, mas considero que para a nossa realidade, os pontos acima já são um bom começo. Provavelmente a escola terá deficiências. Caberá a nós não somente cobrar das autoridades que façam a sua parte, mas tomarmos a iniciativa de sermos parceiros da escola, ajudando onde for necessário para que nossas crianças estejam mais seguras.
Em 7 de abril de 2011, Wellington Menezes de Oliveira invadiu a Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, no Rio de Janeiro, armado com dois revólveres e atirou contra os estudantes, matando doze e ferindo dezenas. O atirador cometeu suicídio após ser ferido e encurralado pela polícia. O triste episódio ficou conhecido como o Masacre de Realengo.
Escola Municipal Tasso da Silveira, momentos após o crime. (Wikimedia Commons)
A sociedade ficou estarrecida com o crime que pensávamos que nunca ocorreria aqui e debates acalorados sobre a segurança em nossas escolas surgiram. Mas, passado um ano, será que alguma lição pode ser aplicada ao Gerenciamento de Emergências?
O crime representou aquilo que se conhece por ocorrência de atirador ativo (active shooter). Segundo o Department of Homeland Security (DHS), "um atirador ativo é um indivíduo ativamente engajado em matar ou tentar matar pessoas em uma área confinada e povoada; na maioria dos casos, atiradores ativos usam armas de fogo e não há um padrão ou método para sua seleção de vítimas".
A partir disso, o procedimento padrão passou a ser o enfrentamento imediato do atirador, para que ele cesse os disparos: exatamente o que fez em Realengo o então 3º Sargento PM Márcio Alexandre Alves e seus colegas (na minha opinião, mais por um feeling correto do policial do que por causa de treinamento para situação de atirador ativo).
Policiais americanos treinam para conter um atirador ativo. (http://policecrunch.com/)
Preparação
Mas, e por aqui, será que aprendemos alguma coisa? Será que hoje nossos policiais têm programas para enfrentamento de atiradores ativos? E quanto às escolas ou empresas, a ameaça de atirador ativo foi identificada e tratada?
Conforme já discutido na postagem sobre crises em segurança pública, o trabalho deverá ser no sentido de diminuir as vulnerabilidades. A grande vantagem de fazer o planejamento de emergências baseado em uma análise de ameaças e riscos (all hazards) é que após a identificação de ameaça e do dano, a resposta para um evento serve para muitos outros.
Assim, o reforço da segurança física de áreas e instalações serve tanto para deter um atirador ativo quanto um assaltante comum. Procedimentos para equipes de segurança e emergência podem tanto ser acionados no caso de assalto a um caixa eletrônico nas dependências da empresa, quanto para um atirador desequilibrado.
Na postagem anterior, citei uma passagem de Lewis Carroll sobre lições (não) aprendidas em eventos traumáticos que, creio eu, merece uma repetição:
"O horror daquele momento," o rei continuou, "eu nunca, nunca vou esquecer!"
"Você vai, no entanto," disse a Rainha, "se você não fizer um memorando sobre isso."
Lewis Carroll, Through the Looking-Glass, and What Alice Found There, 1871
Essa ameaça, como outras, precisa ser identificada e as organizações precisam estar preparadas. Não adianta simplesmente esquecer e fingir que não irá acontecer de novo.
"O horror daquele momento," o rei continuou, "eu nunca, nunca vou esquecer!" "Você vai, no entanto," disse a Rainha, "se você não fizer um memorando sobre isso." Lewis Carroll, Through the Looking-Glass, and What Alice Found There, 1871
Duas publicações interessantes foram lançadas nos últimos tempos abordando o tema. Em uma deles, os economistas suecos Mikael Elinder e Oscar Erixson analisaram 18 dos maiores naufrágios ocorridos entre 1852 e 2011 e concluíram que o comportamento altruístico de "mulheres e crianças primeiro" do Titanic foi uma exceção, já que as crianças apresentaram a taxa de sobrevivência mais baixa, enquanto as taxas mais altas foram de tripulantes. No meu ver, embora sempre possa haver um Comandante Francesco Schettino, mais do que mostrar que um comportamento egoísta é o reinante em situações de desastre, essas taxas de sobrevivência mostram que as diferenças entre o desenvolvimento neurológico e cognitivo entre crianças e adultos são ignoradas no planejamento de emergências, conforme já colocado na postagem sobre crianças em emergências. Além disso, o estudo aponta diferenças enormes entre a preparação e treinamento dos tripulantes e dos passageiros.
Em outra publicação, Regina Phelps analisa em seu blog algumas lições do naufrágio para o Gerenciamento de Emergências. Entre elas, podemos destacar a importância da comunicação, tanto interna quanto externa. Quando a ordem de abandono foi dada, podemos imaginar qeu os passageiros da terceira classe não devam ter tido muito acesso à informação. Na comunicação externa, o transatlântico estava equipado com o sistema Marconi de telégrafo sem fio, um dos mais modernos da época, mas poucas pessoas sabiam enviar ou receber mensagens pelo sistema.
O planejamento, mesmo para eventos impensáveis, como o naufrágio de um navio "insubmersível", deve ser levado a sério, feito e treinado. Quando o desastre ocorrer, se ocorrer, isso pode fazer a diferença entre viver ou morrer.
Muitas vezes, no
planejamento de emergências, as crianças são consideradas como adultos em
miniatura ou simplesmente esquecidas. Porém, do ponto de vista da
sobrevivência, as crianças devem ser consideradas como funcionalmente
diferentes dos adultos, devido ao seu estágio de desenvolvimento neurológico e
cognitivo. Crianças terão mais dificuldade em utilizar sistemas de emergência e
precisarão de ajuda de um adulto nesse caso.
No pior dos casos: a SWAT de Seattle treina a retomada de uma escola em ocorrência de atirador ativo. (
http://www.westseattleherald.com/ )
Conforme nota o
Professor John Leach, essa situação pode ser minimizada com a instrução sobre
emergências nas escolas. Além disso, as crianças adotam muito mais facilmente
uma cultura de segurança e preparação para emergências.
A Revista Incêndio,
na sua edição 16, publicou uma matéria interessante sobre a preparação das crianças
para incêndios. Alguns trechos:
“(...) Não
queremos que as crianças combatam focos de incêndio – longe disso. Queremos que
elas apenas saibam como preveni-los, como dar um alarme e como escapar com
segurança.
A experiência
nas escolas americanas em relação ao escape em caso de incêndio é muito
positiva. Deveria ser analisada e adaptada à nossa realidade. Lá, uma vez por
semestre é acionado o alarme contra incêndio. Nesse momento, as crianças mais
próximas das janelas as fecham, é formada uma fila, é verificada qual é a rota
de escape mais próxima numa planta que fica permanentemente dentro da sala,
procede-se o escape e há um ponto de encontro externo, onde as crianças
aguardam o final da simulação. Tudo com seriedade, e ao mesmo tempo, tranquilidade.
Não há mal em copiar boas ideias. É nossa obrigação ensinar e conscientizar os
pequenos.
O fogo é um
processo físico-químico. Por que não envolver o professor de ciências numa aula
sobre incêndio? A “brincadeira” Pare! Deite! Role! (ações que devem ser tomadas
quando a roupa pega fogo) é um ótimo exercício.
E os
adolescentes? Essa faixa etária é terrível! Frequentam teatros, cinemas, boates
que, com honrosas exceções, tem suas saídas de emergência mal sinalizadas,
bloqueadas ou trancadas. Fica como proposta que as escolas, como entidades
organizadas para educar com metodologia, tomem para si esta nossa obrigação.
Uma aula sobre fogo, uma simulação de incêndio, são atividades que irão apenas
acrescentar (...)”
Outro exemplo de
preparação de crianças para emergências pode ser visto no vídeo português
abaixo:
O investimento
na preparação das crianças para emergências, além da óbvia vantagem de
protegê-las caso algo ocorra, pode tornar nossa sociedade mais resiliente em
longo prazo.